domingo, 25 de março de 2012

UM DOMINGO NO PARQUE

A noite submissa à escuridão num patio de folhas secas, onde a relva escutava as vozes de corpos perdidos entre si espalhados no parque, calava os pássaros com o vôo de morcegos de asas silenciosas...

Assim era o inicio,
Assim seria o fim
As luzes dos postes esparramavam um manto melancólico,
deprimindo seu tecido sobre a copa noturna das árvores
Relva nas folhas de João, de Jorge, de Miguel, de José, de Fernandes, de Gabriel, de Pedro, de Alexandre, de Paulo...
Relva nas folhas de Whitman alucinado no descompasso de um desejo sem fim,
Uma purgação numa carne sem limites pretejada nas entrelinhas da escuridão, rabiscada com o tempero da intimidade violada,
Da respiração ofegante,
Do sumiço da face,
Ante os olhos das trevas
O olhar que não vê
Que não enxerga
O rosto camuflado de paisagem tumular...

As árvores sopravam os cânticos do desespero
Quando as folhas caiam em braços de Caim
Assassinando no parque seus irmãos,
Contaminados pelo desejo de pedra
O beijo de Górgona, que odiava o homem mortal...

As árvores diluiam o tempo
Escondiam os relógios
As paredes eram de folhas, e a prisão se misturava com o jardim,
se escondia no tapete verde escuro, mais escuro que uma poção infernal
O verde cintilante dos olhos apagados
O verde faiscante dos batons desfigurados
O verde poluído do mar infestado de piranhas
Dilaceradas pelos próprios dentes
Piranhas da terra
Destroçadas pelas próprias garras
Agarradas pelas próprias mandíbulas
Numa eterna dor que sente
A carne rasgando a carne
A terra engolindo a terra
O poder da navalha nos olhos
Cortando a fumaça da alma, anestesiada no escuro
Abraçada por um antro de bambus, ocos, e configurados para serem abrigo da orgia de Pan,
Pele humana servida com os vinhos das verdes uvas
E com o doce ácido de um cáustico marzipan envenenado,
Petrificado
Desenhado numa maçã caída nas folhas da relva
Uma maçã envenenada
No parque sem príncipe
Uma maçã verde tingida de sangue
Da discórdia uma centelha
Uma maçã doce e vermelha
Nas labaredas de teu olhar petrificado
A escuridão insistia em penetrar seus dedos nas couraças humanas
Sem vento, a imobilidade era como um véu abrigando aqueles corpos na caçada
A morte era guardada numa urna
Uma caçada sem tiros,
Uma arma sem balas
Uma guerra noturna
De diabos contra morcegos
De ratos contra lobos
De cobras e corujas
E chacais do desespero
Negrejados
Alvejados
Baleados
Calados pela dor da masturbação
Desesperada, sem vida
Os ramos de hera envolvendo a pinha
Na dor da felicidade fugaz, sem riso
Sobressai o absoluto do nada
Medra o tirso
De pedra,
Uma paixão maldita
Os olhos de Fedra
Nas pálpebras de uma rameira, a doce videira
Rente olhar na noite submissa à escuridão
num pátio de folhas secas,
onde a relva escutando as vozes de corpos perdidos entre si espalhados no parque,
calava os pássaros,
com o vôo de morcegos de asas silenciosas...

E no encosto soturno
o rosto era tragado pelo manto do anonimato
as mãos perdidas pelos labirintos do tato
e no fundo do poço
um minotauro
no falo incompatível com o amor
falado na castração de saturno
eu falo que sofro
eu falo que sinto dor
eu falo que morro
mas os corpos não escutam
os corpos não sentem calor
e tampouco, pedem socorro
quando digo o que falo quando sofro
quando digo que morro
eterno e calado
na revoada dos pássaros da noite
os morcegos de asas silenciosas
carnívoros das trevas ocultas no sangue
o gato que comeu sua língua
e devorou sua alma
em carne viva
sem renascimento
sem percepção
almas mortas no parque dos passeios noturnos
turbado as horas
na masturbação do tempo
frágeis lábios de marzipan
envenenados pelo sereno
do promíscuo orvalho
ejaculado
de um gigante enegrecido carvalho
amolecido pelo desespero
quando enforcam-se os anjos, sem asas
silenciosas,
fantasiados de morcegos

Assim era o início,
Assim seria o fim:
Sem a possibilidade de um recomeço...

FC

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